Amílcar Barreto Ramos

A análise da obra “A Louca de Serrano” será uma abordagem que pretende explorar a importância da escrita feminina na literatura e na sociedade Cabo-verdiana. A autora através de pintura de quadros vivos, retratos do quotidiano, rostos e paisagens leva o leitor a pensar a mulher contemporânea e a sua contribuição para a construção da sua nacionalidade e a cultura do seu tempo. Esta reflexão assenta fundamentalmente na análise das personagens, no olhar sobre a mulher; na participação do feminino na construção da nacionalidade e no aparecimento do feminino na literatura Cabo-verdiana, estabelecendo relação com Orlanda Amarílis e Vera Duarte.

Em face de exposto, para o fio condutor desta análise, pretende-se procurar a resposta para a seguinte pergunta: Até que ponto a escrita de autoria feminina em Cabo-verde contribuiu para uma nova leitura da realidade social e literária?

Partindo da questão formulada e para cumprir os objetivos traçados este trabalho seguirá seguinte metodologia:

  • Pesquisa bibliográfica para revisão dos conceitos teóricos e os respetivos registos;
  • Leitura e análise crítica do texto para elencar aspetos que realçam as funções dos novos sujeitos femininos no desenho de caminhos diferenciados para a literatura Cabo-verdiana e a participação do feminino na construção da nacionalidade (questões de género e especialidade).

 2 – Enquadramento literário da obra

A louca de Serrano de Dina Salústio é uma obra que pertence ao género literário, o romance, sendo o primeiro publicado pela referida autora. Tendo em conta o ano de publicação (1998) e a periodização da literatura Cabo-verdiana elaborada por Pires Laranjeira, a obra de Dina Salústio enquadra-se no sexto período que vai de 1983 até atualidade, período que coincide com a “geração dos novíssimos”. Esta Conceção contribuiu para uma verdadeira consolidação da literatura Cabo-verdiana, marcada pelo surgimento de novas tendências literárias, nomeadamente a opção por temáticas e géneros diversificados e menos apegados ao contexto nacional, contrariamente como acontecia com os períodos anteriores. Como afirma Simone Caputo, esta reversão de processos e temas acabará norteando as novas tendências e os novos rumos para o discurso poético. Dessas variedades temáticas destacam-se: A preocupação cognitiva, a interrogação antológica (observa a universalidade dos temas o amor, a existência, a morte, a solidariedade, a felicidade, a escrita); e ainda a inquirição sobre o perfile da identidade pátria, mas com inovações, com uso de imagens de decadência e de desencanto, a aguda visão critica, a emergência de uma escrita feminina e a intertextualidade.

 

3 – Análise textual

As ações levadas a cabo, para a libertação da mulher aparecem como movimento social no final do seculo XIX. Este movimento feminista propõe conquistar os direitos elementares como o direito a aprender a escrever, a ler que até então eram reservados ao género masculino e traça como objetivo até os anos 1960, atingir o paradigma da igualdade. Simone Caputo descreve a evolução da condição feminina em Cabo Verde. Inicialmente, por rasões coloniais a mulher era impossibilitada de sair de trabalho doméstico, cabendo ao homem o poder da decisão. Com as mudanças sociais a mulher foi obrigada a assumir o papel de gestora, não somente no ceio da família, mas também na função publica, nas empresas privadas, na agricultura, na construção civil…

Na obra A louca de Serrano, de Dina Salústio, a Louca, protagonista do romance, fazendo par ou dupla com Felipa, batiza a localidade de Serrano e fornece o tom para o desenvolvimento da narrativa: Num povoado em que a tradição (representada pela figura da “velha-velha”, a parteira curandeira e iniciadora dos rapazes da aldeia) não é questionada, ela acompanha de forma fantasmática gerações de mulheres fortes como Gremiana e Felipa que arriscaram contestar as verdades tidas até então como dogmáticas. A louca, através de um ciclo estabelecido, aparecia na povoação de forma extraordinária, para desaparecer do mundo dos vivos quando completava o ciclo de trinta e três anos e já tivesse visto tudo que tinha para ver, e ouvido tudo o que tinha para ouvir. Depois voltava a aparecer, filha de gente nenhuma, de lugar e tempo nenhuns, criança, mulher. P. 26.

Esta personagem que se torna difícil a sua caraterização física porque são poucos elementos na obra que permitem faze-la, tendo em conta a sua forma de vestir e a sua fisionomia, mas em contrapartida quanto ao seu comportamento, existem vários outros elementos que a caracterizam e esclarecem o nome pela qual é conhecida. Esta figura, surge assim como uma condição que define o feminino como figura, como uma condição, apagando-se assim o sujeito em si.

Esta outsider, destacada pelo narrador como a única perita na história de Serrano vai revolucionar as atitudes dessa localidade, a ponto de levar o próprio pároco da aldeia a lançar um novo olhar sobre os seus fiéis (propondo, inclusive, uma oposição entre as beatas invejosas e mulheres ocupadas; “as mais bonitas, as mais airosas, as mais interessantes e generosas”, cujo os pecados eram pequenos. (Pp 58 e 42).

A personagem A Louca problematiza o sermão do padre, que afirma que “o dinheiro é uma arma que se volta contra o dono” e que “revoltar-se contra os ricos é pecado”, ela é “uma desconhecida “ que aparece e desaparece quando lhe convém” e, pensa o padre “quando é necessário” (p. 44):

“Uma desconhecida que nunca tentou entrar na igreja, o que levava os fiéis mais atentos a definir-lhe possíveis laços com o demónio, continuava a argumentar em palavras desarticuladas, que os pobres eram a porcaria que os ricos utilizavam para se tornarem mais ricos, para pecarem, para desobedecer aos princípios de igualdade definidos por um conhecido visionário e, finalmente os utilizavam como instrumentos para a sua própria salvação. Escarnecia e insultava também os pobres por preferirem andar de corpos e mãos estendidos a negociar esmolas, a revindicar meios para ficarem independentes da hipócrita caridade de outros.” (P.39) neste aspeto realça-se, segundo Caputo “uma inquirição sobre o perfil da identidade pátria, mas com inovações, como o uso de imagens de decadência e de desencanto; a aguda visão crítica, o humor e a figura satírica do real.”

Em Serrano, aldeia onde “os sonhos abortavam ou morriam cedo” (p.51) as mulheres, representadas pela personagem Maninha, eram tidas como estéreis, fêmeas cujos “úteros não passavam de terra seca”; segundo os maridos, engravidavam por milagre, na verdade dormiam com homens da cidade, “especialistas que percebiam do assunto”. A Louca, na sua denúncia, “berrava que os farmacêuticos eram a desafronta das mulheres de Serrano” (pp 63 e 64).

Outra personagem que quase faz ruir a ordem vigente, enfrentando a acusação dos homens foi a Gremiana: “ A única Serrana que rebelou contra a prática organizada na aldeia para diminuir o sofrimento das mulheres apaziguar os humores dos seus homens, ou ofegar o ego oculto das serranas, não se sabe bem, foi a Gremiana que enfrentou a população inteira, num fim da tarde (…), depois de escutar Valentim, o homem com quem vivia desde os treze anos, a gabar-se no bar que ele podia ter todos os filhos do mundo se a mulher não fosse defeituosa (…), apregoando a sua virilidade e a pouca serventia da companheira (…), ela esqueceu a vergonha da mulher humilde, perdeu o medo às pancadas, que viriam e às injurias que iriam acontecer e gritou as verdades, todas elas, aos homens da região, a todos eles que na mesma hora, juntos, maridos pai irmão, amigos e parenteses (…) correram atrás dela aos insultos e á paulada desde do largo da Casa da Luz, como era conhecida a casa da parteira até à ribeira-rio onde as correntes eram mais bravas, gritando possessos que Gremiana era uma vagabunda desenvergonhada de barriga oca. Vendo o seu poder de macho e o poder tão dolorosamente conquistado ameaçados de cair por terra, sem conseguir esconder nos berros o medo que os diminuíam, gritavam todo o ódio que sentiam por Gremiana, afinal todo o ódio que sentiam pelas mulheres de Serrano, e por todas as mulheres do mundo.” (p. 64- 65)

Realça-se neste capítulo a dimensão do feminino, a sua figura e identidade é explorada em várias dimensões, denunciando a privação calculada do sexo, a violação, a pancada, a injúria tudo em nome da incapacidade de procriar. A Gremiana tal como a Louca, com a sua coragem, tenta instaurar um outro paradigma, mas “desaparece no meio das águas e das pedras que lhe massacram o corpo alto e forte”. (p – 73)

Filipa, outra personagem importante do romance, vive na capital sua rotina pós-moderna no ano de 1994, embora estabeleça o contraponto com o passado de Serrano durante toda a narrativa. Desconhecendo a sua família de origem, pelo fato de ser abandonada pela mãe (a fotografia Genoveva San Martin, que aparecia repentinamente em Serrano, desmemoriada, após ter sofrido um acidente), Felipa, exposta à “orientação desencontrada” de várias madrastas, elege na infância como pai adotivo, jerónimo, como referência emocional e seu tempo paradisíaco.

Como se percebe, a autora põe em cena grandes mulheres: A Louca, Filipa, Gremiana, tantas as outras, com as suas forças e fragilidades tentam traduzir uma nova subjetividade, e a autora mostra que as lutas de outrora foram imprescindíveis para as conquistas de hoje. No entanto, no universo de sentimentos que constituem o mundo de mulher, há ainda o sofrimento e a amargura de muitas mulheres que ainda enfrentam a dura e opressiva realidade ditada por uma sociedade desequilibrada em termos de género.

A leitura da obra “A louca de Serrano” conduz o leitor para uma realidade que tem marcado a literatura Cabo-verdiana, dos anos noventa à atualidade. A emergência de uma produção literária feminina que vem conceder a voz, a tempo inteiro, a um sujeito lírico que vai aprofundando assim no universo feminino. Desta forma, realça-se a importância da escrita da Dina Salústio, Vera Duarte e Orlanda Amarílis que contribuíram para uma nova paradigma na literatura Cabo-verdiana. Assim, verifica-se o surgimento de novos temas que falam das mulheres como por exemplo: a prostituição, bruxarias, loucura, aborto, lesbianismo, entre outros, permitindo assim aflorar origens de crenças e práticas sociais frequentemente opressivas e estigmatizadas.

A escritora Vera Duarte no seu livro “Preces e Suplicas ou os cantos da Desesperança” destaca a presença marcante da mulher na construção de um mundo diferente, enunciada no primeiro poema, “Meu eu Mulher” vai ganhando consistência nos poemas seguintes, em que são ressaltadas as sucessivas violações dos direitos da mulher. (Rosto acabado, ar tristonha, cheia de varizes, miserável, bêbada, prostituta, o sexo à venda em cada esquina gerando prazer e desprezo, degradada e maltratada, desrespeitada, brutalizada e, por fim morta à beira do cais (pp 93- 97). Face a essa trajetória de males, cresce o tom imperativo na fala poética. Desperta-te mulher!/ Larga toda essa miséria/ e vem lutar pela verdadeira mulher. Esta parte do livro encerra-se com o poema “A Mulher de Hoje” que anuncia o futuro: Acabou-se o tempo dos abutres/ Tempos novos/ Ideias recuperadas/ Brilho no ar e transparência em tudo/ Serão espelhos/ onde se refletirá/ a imagem diferente e subversiva da mulher de hoje/ a crescer/ a VIVER. (p 98)

Em Orlanda Amarílis, no livro De Cais se Sodré até Salamansa a narrativa é relatada sobretudo por vozes femininas. À identidade da nação soma-se a do assim chamado “género”. Não se trata apenas de representar Cabo Verde, mas de construir a maneira de ser das mulheres Cabo-verdianas.

 

4 – Considerações finais

Da leitura e análise da obra A Louca de Serrano percebe-se que a autora dá realce ao papel das personagens, uma das categorias fundamentais desta narrativa que contribuíram para a sua dinâmica. A vivência das personagens de Serrano é marcada por uma relação complexa que se estabelece entre a jovem louca e os outros intervenientes da história. O protagonismo da história é assumido pela Felipa e pela Louca. Esta, devido à sua aparente loucura e à sua perícia exerce grande influência no comportamento, nas ações e nas atitudes dos habitantes da aldeia; a submissão das serranas em relação às leis machistas que vigoravam na aldeia; o percurso de vida de mulheres como Filipa, Gremiana e a jovem louca que lutam, acreditando sempre em si mesmas marcam todo o texto.

Assim, pelo percurso das personagens a autora demonstra toda a luta da mulher para a sua emancipação, lutando contra o status quo instalado na sociedade

5 – Bibliografia

SALUSTIUO, Dina. A Louca de Serrano, 1998

SALUSTIUO, Dina. Morna eram as noites,

REIS, Carlos. Técnicas de análise textual, 1981

BARTHES, Roland. A Morte do autor, 2004

BAKHTIN, Mikhail. Questões de Literatura e de Estética, S. Paulo 1988

EAGLENTON, Terry. Teoria De Literatura: Uma Introdução

POUL, De MAN. A resistência à teoria, 1989

Hall, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade, 11ª edição

VERA, Duarte. Preces e Suplicas ou os cantos da Desesperança

ORLANDA, Amarílis. Do Cais de Sodré a Salamansa

Publicado em 25/05/13, por Jassica Fernandes

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