G 4

Tiago levou-o para a sua humilde moradia e quando lá chegaram, Bruno ficou espantado com a condição em que o seu novo amigo vivia.

No dia seguinte, Bruno acordou muito tarde devido ao cansaço e aos abalos do dia anterior, procurou pelo amigo e não o encontrou. No vazio da solidão e sem nada para comer, Bruno lembrou-se da sua mãe e, logo, lágrimas de dor e saudade escorreram-lhe dos olhos inchados de tanto chorar.

Ao chegar a casa, Tiago encontrou Bruno a chorar e perguntou-lhe o que se passava.

– Não é nada – respondeu o Bruno, enxugando as lágrimas com as mãos.

– Como assim nada?- insistiu Tiago.

– Apenas lembranças da minha mãezinha e da imensa falta que ela me faz – respondeu Bruno tentando conter as lágrimas que insistentemente lhe escorriam pela face.

Depois de ouvir toda a história do Bruno, Tiago tirou da mochila duas maçãs e dois pães que comprou com o dinheiro que recebeu da lavagem de um carro durante o dia, já que nesse dia havia muita circulação e os carros raramente paravam. Isso era tudo o que tinham para comer e algum dinheirinho que sobrara da compra.

Comovido, Tiago convidou o amigo para trabalharem juntos nos arredores de Sucupira onde não faltam carros para lavar como forma de fazê-lo esquecer das suas amarguras. Hesitando por algum tempo, Bruno acabou por aceitar a oferta convencido de que isso seria a melhor forma de esquecer os acontecimentos tristes dos últimos dias.

Por muito tempo, Bruno e Tiago trabalharam juntos na lavagem de carros e todas as pessoas se mostravam indiferentes à aparência dos rapazes, pouco se importando com as péssimas condições de vida em que se encontravam.

Um certo dia, um casal de emigrantes da Holanda parou um Mercedes-Benz à frente dos rapazes e pediu-lhes educadamente que lavassem o carro. A Sr. Arlinda ficou muito comovida ao ver duas crianças tão novinhas a trabalhar, quando deveriam estar na escola.

– Olá, como te chamas? Disse a Sra. Arlinda – dirigindo-se ao Bruno.

– Chamo-me Bruno, e este é o meu amigo Tiago – Respondeu o rapaz.

– O que estão a fazer? Não deviam estar na escola?-  Perguntou a senhora.

– Estamos a trabalhar porque só temos um ao outro – Replicou o Tiago.

– Como assim?

Bruno e Tiago resolveram contar toda a sua história recheada de acontecimentos trágicos. Sensibilizada, a Sr. Arlinda e o Sr. Fernando resolveram adoptar o Bruno, dando entrada com as papeladas da adopção. Como não poderiam esquecer do Tiago, contactaram um casal amigo que, também, se encontrava de férias, e que estava interessado em adoptar uma criança.

Enquanto Bruno começava a endireitar a sua vida, seu pai pagava por todos os seus pecados na prisão, envolvendo-se em brigas com os demais prisioneiros da sua cela.

– Ouviste que aquele cobardola bateu na mulher até à morte! – Murmuravam dois presos – No momento certo vamos dar-lhe uma lição.

Eis que o tão esperado momento chegou quando Paulo foi à casa de banho. Os dois presos seguiram-no e cercaram-no.

– Com que então gostas de bater em mulheres, seu cobarde!? – Disse um deles.

– Gosto sim, aquela miserável merecia morrer! – Respondeu Paulo com um sorriso sarcástico.

Nem pensaram duas vezes e começaram a espancá-lo de todas as formas possíveis e imaginárias. Ao levar tantas pancadas na cabeça, Paulo perdeu os sentidos e caiu. Os presos saíram da casa de banho como se nada tivesse acontecido, e deixaram-no a sangrar insistentemente até que, na hora do almoço, dois guardas notaram que Paulo não se encontrava no refeitório e foram à sua procura. Encontraram-no inconsciente na casa de banho.

Enquanto isso, depois de alguns meses, os documentos da adopção de Bruno, finalmente, ficaram prontos. Com a adopção, o casal resolveu viajar para Holanda com o intuito de permanecer em Amsterdão por algum tempo.

Tiago teve a mesma sorte, foi adoptado pelo casal amigo dos pais adoptivos de Bruno e também foi viver para Holanda.

Lá na capital holandesa, Bruno recebeu junto dos pais adoptivos a triste notícia da morte do pai biológico, através da TCV Internacional.

Os rapazes mantiveram, na belíssima cidade de Amsterdão, aquela amizade pura e sincera, sempre contando com o apoio e incentivo das suas famílias adoptivas. Passeavam aos fins-de-semana e durante as férias estavam sempre juntos.

Bruno e Tiago frequentaram a mesma escola, formaram-se na mesma universidade e tornaram-se profissionais bem-sucedidos.

 

 

 

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