Uma Mão Generosa.

Era uma bela manhã do mês de Junho, embora viesse a terminar com um triste facto… Bruno queria aproveitar ao máximo sua manhã de sexta-feira e divertir-se com os amiguinhos da vizinhança. Saiu bem cedo da sua humilde casinha, que era simples mas bastante acolhedora, levando com ele o seu carrinho de lata para brincar de motorista.
Na verdade, em Casa Lata, as crianças não têm muitas alternativas para se divertirem, a não ser que elas sejam bem criativas.
Buno brincou, gritou, pulou e correu, até que, por volta das onze horas, ouviu algo estranho:
-Booo, booo…booo.
Só depois de algum tempo, Bruninho como era carinhosamente chamado pelos amigos e familiares, se apercebeu que era um chamado:
-Bruno, Bruno…ò Bruno!!!
Por ele ser muito obediente, pôs logo suas perninhas franzinas a mexer, ao ouvir o chamado da mãe. Quando chegou, logo à entrada, pôs-se de pé em cima de um tijolo desprendido que servia como escada, a escutar o que pensou ser uma conversa:
-És um irresponsável! – disse a mãe
-Cala-te, que nada tens a ver com a minha vida, sua…! – respondeu o pai
-Ah é? – replica a mãe
– Exactamente como ouviste! Sou Homem e tenho mais é que beber! Toma o que mereces….
Na verdade, não se tratava de uma conversa. Os pais do Bruno discutiam como quem não tem respeito próprio, e o Bruno, espantado, ouvia tudo incluindo o sofrimento da mãe ao ser espancada pelo próprio pai, que como sempre estava bêbado.
– Pára, por favor!
– Socorro! – gritava a mãe do Bruno, sofrendo.
De facto, aquela não era a primeira vez que aquilo acontecia. No bairro, registam-se, com muita frequência, casos de violência doméstica e pouco se faz para reverter a situação.
Amável como era, e bastante resolvido para uma criança de apensas oito anitos, Bruno resolveu entrar, movido por um estranho sentimento.
– Pai, porquê isso? – ainda tentando chamar o pai à razão.
– E o que tens a ver com isto, coisa insignificante? – Troçou o pai.
-Sai daqui meu filho, que não tens que passar por isto!- Gritou a mãe, premeditando o que podia acontecer.
– Não mãe! Eu vou chamar a polícia. Posso? – perguntou o pequeno, preocupado.
– Ah! Queres chamar a polícia? Estás muito atrevido para uma criança da tua idade. Mereces um correctivo…
Aquele homem, bêbado e endemoniado, pegou o Bruno pelos braços marcados por outras cenas de violência e castigou-lhe com uma vara de fios de electrificação. Bateu, bateu e bateu como se estivesse a treinar para uma competição de espadachim. Era doloroso ouvir os gritos daquela criança tão meiga, enquanto era torturada.
Os vizinhos por sua vez, ouviam tudo do lado de fora, como quem estivesse num áudio-cinema, sem intervir. Alguns até diziam:
– As mulheres de hoje não respeitam os maridos.
– As crianças perderam a consideração para com os mais velhos! – diziam outros, não se importando.
Diversos casos de violência baseada no gênero foram registados no ano passado(2012), mas as vítimas, como a mãe do Bruno, não se queixam.
Horas e com uma cara bem triste, Bruno ajeita-se em frente à porta, todavia mal consegue sentar-se , porque doía-lhe o corpo. Estava muito pensativo. Bem na esquina, viu o seu pai se arrastando para chegar à casa, ao mesmo tempo que, algumas crianças corriam de volta para as suas casas, assustadas com aquela presença monstruosa.
Aproximando-se, perguntou-lhe o pai num tom irónico:
-Dói muito, filho?
Tristonho, Bruno levantou-se e foi procurar pela mãe.
-Ah! És mesmo mal educado. Não aprendeste nada hoje de manhã? Menino arrogante! – gritou o pai enraivecido.
-Deixa o coitado, Paulo! – interveio a mãe com a cara inchada de tanto ser espancada.
Mas o pai nem se quer deu ouvidos à Júlia, e ameaçou de novo a criança. Quando lhe pegou com uma mão e tentou desamarrar o cinto com a outra, Bruno nem sequer pensou duas vezes, pôs-se a correr porta fora.

Bruno correu, correu até que já não tinha mais forças. Então parou perto de uma árvore e sentou para descansar um pouco. E enquanto descansava, pensava nas cenas de violência de que tanto ele como a mãe eram vítimas.

Ao cair da noite, Bruno foi para casa e ficou escondido debaixo da escada, pois não queria cruzar-se com o pai.

Todas as noites, Paulo saía de casa para sentar num bar na vizinhança. Bruno, conhecendo o hábito dele, esperou que saísse para poder entrar. Quando entrou, reparou que a mãe estava aflicta por causa do seu sumiço.

– Bruno, onde estavas? Eu fiquei preocupada contigo!

– Fiquei com medo do pai, por isso só entrei quando ele saiu.

Bruno jantou e foi para a cama. No dia seguinte, levantou-se bem cedo e saiu para não se encontrar com o pai. A mãe pôde perceber que o filho estava traumatizado e tentando encontrar uma solução para o mal que os afligia, decidiu tentar conversar com o marido.

– Paulo, o nosso filho está com um comportamento estranho por conta do que aconteceu ontem.

– Por que estás a dizer-me isso?

-Por ser nosso filho e porque temos que pensar no bem-estar dele.

-Deixa-me em paz, mulher!

Júlia viu que o marido não queria saber de conversa e muito menos falar sobre o filho. Ela foi trabalhar mas, entristecia, sempre que se lembrava do filho. Pensou muito e então decidiu que queria a separação, a fim de proteger o menino dos maus tratos. Essa decisão foi muito difícil, porque ela temia que a reacção do marido não fosse pacífica.

Já passava das dez da noite e a mãe do Bruno estava preocupada porque o marido não tinha voltado, mas ao mesmo tempo aliviada por gozar algumas horas de paz naquela casa.

De repente ouviu um barulho lá fora e o marido entrou de seguida embriagado, sujo e começou a quebrar os móveis que escaparam à sua fúria numa outra ocasião.

– O nosso filho voltou, Paulo – disse ao marido.

Ele não deu ouvidos à mulher. Continuou a quebrar tudo o que encontrava pela frente. Ela insistiu e ele ficou ainda mais furioso. Então começou a bater na mulher, mas só que naquele dia não parou e Bruno presenciou tudo como se estivesse a assistir um filme de terror.

Na tentativa desesperada de deter o pai, apanhou um vaso e atirou-o às costas dele e como resposta levou uma bofetada. Entretanto, o pai volta-se para a mãe e continua a agredi-la.

Naquele dia, a surra foi tão violenta que Júlia desmaiou. O filho desesperado saiu porta fora a gritar por socorro.

Felizmente, naquele dia, os vizinhos acudiram-nos. Ao ver o estado da mãe, Bruno assustado desatou a gritar, sem saber o que fazer. Júlia foi hospitalizada mas, o prognóstico era muito reservado.

Bruno recebeu a triste notícia de que a mãe tinha falecido às cinco horas da tarde do dia seguinte. Segundo lhe disseram: “infelizmente, não resistiu aos ferimentos”.

E o pai foi detido, embora tarde demais para Bruno e a pobre mãe.

Desesperado saiu a correr, sem rumo e só parou na praia de Quebra Canela. Ainda chorava e gritava desesperadamente, quando um rapaz um pouco mais velho do que ele se aproximou e perguntou-lhe o que se passava. Ele todo tristonho, com os olhos inchados de tanto chorar, disse que acabara de perder a mãe, que fora espancada pelo seu próprio pai, e que estava sozinho no mundo, sem nada e sem saber o que fazer da vida dele.

Então o rapaz disse-lhe que se chamava Tiago e que não tinha pais, nem familiares e que tinha saído de casa aos 7 anos, porque a mãe se prostituía.

Tiago apesar de não ser educado no seio de uma família, era um rapaz esperto e meigo. Com 9 anos, não sabia quem era o pai, e estava entregue à sua sorte, tendo que trabalhar para poder sobreviver. Ele confessou ao seu novo amigo Bruno que não era fácil viver na rua e muitas vezes questionava se um dia haveria mudanças ou encontraria outro rumo.

Tiago pediu ao Bruno que o acompanhasse. Embora não tivesse um lar, tinha um lugar para ele ficar. Morava num pardieiro abandonado no bairro do Brasil. As portas, as janelas e a cama eram de papelão e alguns ramos faziam vez de cobertura. Para se sustentar, lavava carros, ajudava a arrumar as compras no supermercado Calú e Ângela e como paga recebia frutas, pães, yogurtes, entre outros produtos alimentícios.

 

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